quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

O acróstico prometido José Luís Borges

Jarras de pura poesia
Olham de iluminação
Sofrem de tais vivências
Ébrias de tanto coração

Louco é o poeta
Um ávido de palavras
Ínclitas de sublimação
Soltas de elocução

Bebem-se à mesa fábulas
Obrigadas a não se completarem
Recebem-se os incertos
Garridos de grafemas
Encontrados em poemas
Sem haver livros abertos.

A pedido de José Luís

Chá das cinco com cinco ícones

Quando cheguei ao salão
Já lá se encontrava Wilde,
Dilacerava com alguma tristeza
Mas com afinco o seu amor submisso,
Enquanto o ouvia com ternura
Chegou Chopin e sentou-se ao piano
Preferiu acenar-me em escala diatónica
E eu conheci toda a história de uma sinfonia
Quando dei conta à minha esquerda
Encontrava-se Miró
Evitou cumprimentar-me, mas só depois percebi
Expressou-se da sua forma
De cores e pincéis em imagens sublimes
Só se deteve na entrada de Pessoa
Que declamou poesia
Reclamando que não bebia chá
E que nem sabia qual dos irmãos seria
Quando me levantei para ir embora
Recebi um bilhete do empregado
Era Shakespeare a combinar um encontro a sós.
No soalho de uma casa senhorial
Viviam-se as conversas de poesia
Segredavam-se os beijos proibidos
Guardavam-se canções de amor.
Quando o amor se descobriu
Os beijos prenderam-se
Os monólogos sucederam-se
A tejoleira sobrepôs-se
Vieram as carpetes e os tapetes
Todas as farsas com alfinetes
De peito e de despeito
Transformou-se o leviano
Em farinha de pão mundano.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Finalmente...

Tenho de me redimir, pois tanto tempo sem vir a este espaço é sem dúvida uma falta de respeito para com os meus possíveis leitores. Desculpem!
A minha vida não tem sido nada fácil, chego a trabalhar por volta de 13 horas por dia, nas férias do Natal e de Passagem de Ano há sempre imensa coisa a tratar e imensa gente a quem dar a atenção que foi escassa durante longos meses. E o início do ano é sempre uma azáfama inerente ao regresso do que se deixou por fazer enquanto se esteve de férias.
Finalmente consegui tempo, tempo de qualidade que devia a este blog.
Finalmente consigo desejar-vos Bom Ano 2010, que a prosperidade e a esperança se mantenham nos vossos corações.

Um presente, confidencio-vos em sussuro um dos poemas que me fez amar.


Madrigal Melancólico, de Manuel Bandeira

“O Que Eu Adoro em ti,
Não é a tua beleza.
A beleza, é em nós que ela existe.

A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
Não é triste em si,
Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.

O que eu adoro em ti,
Não é a tua inteligência.
Não é o teu espírito sutil,
Tão ágil, tão luminoso,
- Ave solta no céu matinal da montanha.
Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.

O que eu adoro em ti,
Não é a tua graça musical,
Sucessiva e renovada a cada momento,
Graça aérea como o teu próprio pensamento.
Graça que perturba e que satisfaz.

O que eu adoro em ti,
Não é a mãe que já perdi.
Não é a irmã que já perdi.
E meu pai.

O que eu adoro em tua natureza,
Não é o profundo instinto maternal
Em teu flanco aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que eu adoro em ti – lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti, é a vida.”

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O passado efectivamente já passou...

"O que é que o Amor tem que ver com Roma?
Senão a troca literal de letras
Senão a praça italiana onde te amei
Onde de tanto te amar, me perdi
Onde de tanto me lembrar, me esqueci
Não, já não sou a mesma
Que de tanto ser, nunca fui
O que era em Roma, nunca serei
Talvez porque nem sequer tenha sido
Onde de tanto te amar, me tenha esquecido
O que em mim havia sentido
Sentimentos puros, razão obscena
Roma cidade do meu Amor
Onde o encontrei através de desencontros
De almas perdidas em ruas estreitas
Que falavam de Amor sem dizer uma só palavra
E falo de uma vida que foi vivida e esquecida
Que hoje vive, se viver numa gaveta
Que de sete chaves se tranca
Onde as memórias, recordações
Se misturam com as duvidas da sua existência
Onde Roma tinha tudo que ver com o Amor
Sem ser a troca literal de letras…"

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

A verdade é que...

"Esperei-te, como quem espera
Impaciente, ansiosa, relutante
Imaginei que não vinhas
Pensamentos da espera expectante

Demoraste, (tu nunca demoraste)
Esperei mais um tempo
Voltei a esperar, como quem desespera
E a sofrer a demora com sofrimento

Desisti, como quem espera
E é obrigado a desistir
Não esperei mais, vim-me embora
Parti, sem medo de partir

A escolha foi tua, forçosamente minha
Hoje sei que esperas como quem desespera
E eu com medo de partir
Sofro a demora sem sofrimento, sou-te sincera!"

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

...

"…E os meus olhos inundaram-se de suor
Na mais perfeita convalescença
E se perderam nos presentes
Ao ignorarem a sua presença…
Recordo gente que não conheço
Que nem sabe que existo
Tento viver vidas que não são minhas
De seguida recolho-me,
Mereço, descanso imerso
Autenticidade ao rubro dos inocentes
Percebe-se o que é errado
Mas nada se faz para mudar
Cansa demais mudar, aquilo que damos como certo
Desperdiça-se tempo a contrariar
Aquilo que se contraria no verbo amar
Gente que esboça ternura
Numa tela preta, com fundo de falsidade
Mudam-se os vencidos com o tempo
Tornam-se os bandidos do seu vento
E sopram com leveza
Tudo o que queremos na vida
Nada mais que a beleza
Seja ela de que cor for
Venha ela de onde vier
A beleza da vida não é um tesouro escondido
Seja perdido antes de encontrá-lo
Mas escondido não, nunca o é
E se a encontrarmos num acto de perdição
E a voltarmos a perder por meio de ventos fortes
É porque já a havíamos perdido no enlace dos amores
Que deitámos aos boatos e aos rumores…"

Às vezes quase que dá vontade...

De seguir sem olhar para trás!
De seguir o coração!
De partir com a roupa do corpo!
De gritar no meio da praça!

Quase dá vontade de ser eu,
Sem princípios, nem meios nem fins
Sem educações, bom senso ou coisa que o valha
Sem o controle inerente ao traseunte
Quase dá vontade de ser livre
A tal tábua rasa
A tal criança
Não, não quero ofender ninguém
Não quero rasgar o respeito
Nem amachucar a educação ou o bom senso
Só que às vezes quase que dá vontade de ser livre!

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Se não estiver em casa dos papás...

Deixa de haver jantar feito quando chego a casa;
Deixa de haver aquecimento ligado quando chego a casa;
Deixa de haver roupa lavada e passada a ferro quando chego a casa;
Deixa de haver tempo para ler quando chego a casa;
Deixa de haver alguém à nossa espera quando chego a casa;
Deixa de haver mimos quando chego a casa;
Deixa de haver arrumação quando chego a casa.
MAS
Quando chego a casa,
Visto a indumentária perfeita para este género de coisas,
Meto mãos à obra
E deixa de haver tempo para pensar
"Ai se eu estivesse em casa dos papás".

Quando chove...

Fico naquela moleza que enerva
Enerva porque hoje não é domingo
Enerva porque não posso ficar na cama
Everva porque fui obrigada a levantar-me
...
Hoje já não é domingo
E além de não ser domingo
Chove como se fosse domingo!

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Hoje é domingo e pronto!

Sou poeta de domingo

Tenho na alma um rio

No lugar do coração

Tenho um abraço poético

Os suspiros são desvios

E o pensamento meio céptico

Sou poeta de domingo

Sou poeta do dia seguinte

Sou poeta do dia que não vem

De certa maneira não sou poeta

De certa maneira apenas alguém

Que valoriza a palavra

E a esconde no coração

Que magoa a folha com tinta

Sem nem sequer ter intenção.

Sou alguém que sente como quem escreve'